sábado, 1 de dezembro de 2012

Intolerância

Outro dia me lembrei de uma história que um tio me contou, é um tio que tenho muito orgulho, ele é um dos fundadores do partido comunista no brasil, me deu um pedaço do muro de Berlim, uma moeda comemorativa do congresso comunista estampada com a cara do Prestes, além de me incentivar a ler quando tinha 14 anos de idade a coleção Análise da inteligência brasileira. E aos 16 o livro A coluna Prestes (sendo esses dois últimos, os maiores presentes que ele me deu). Como tantos outros que lutavam na época ele passou maus bocados nos porões da ditadura, e certo dia ele me contou que junto a ele e outros que estavam sendo torturados tinha uma freira, que fazia parte da luta também, e que todo dia ela vinha e cuidava de cada um que havia sido torturado, ela também estava sendo torturada diariamente, mas ainda assim cuidava deles e com um sorriso no rosto dizia que tudo iria dar certo, ele me disse que um dos poucos motivos que sobreviveu foi por causa desta mulher. Isso me fez pensar muito na época (eu era meio revoltado e iconoclasta, como todo adolescente imaturo é), me ajudou a crescer como pessoa. Hoje eu sou obrigado a trazer a tona essa história novamente, pensei muito nela ultimamente, além de ter lido recentemente sobre a influência de segmentos da igreja católica durante a ditadura na propagação das idéias revolucionárias. Mas o que me trouxe essa história a tona, a cada dia vejo na mídia em geral uma crescente tendência a intolerância, uma guerra ideológica, e vejo muitos amigos meus que tenho em alta conta, participando de tal propagação de ódio. Basicamente a briga entre religiosos, sócio-históricos e outros cientistas em geral. Não sei onde começou tal coisa, mas é comum ver posts de ataque dos dois lados, a tolerância parece ter se tornado algo extremamente especifico, não se aplicando a todos os indivíduos. Você é tolerante com quem não discorda de seu ponto de vista. Estou me dirigindo principalmente a meus amigos, e não tanto ao pessoal religioso, não por que os religiosos não estejam sendo tão ruins quanto, mas por que o que vejo diariamente vem de amigos que respeito cuja maioria é ateista ou se faz. Em algum momento houve uma idéia de combater a intolerância religiosa contra ateus, cientistas em geral, o que eu acho esplêndido, todos tem direito as suas crenças e a ser respeitado dentro delas, mas onde foi que a coisa começou a dar errado? Hoje o que vejo são ataques diretos, comentários sarcásticos e violentos, desmoralizações e preconceito em geral. A religião para muitos virou uma fonte de imbecilidade, ignorância e violência. Mas essa discussão não era exatamente sobre tolerância? Eu penso se é possível julgar as pessoas por suas crenças e convicções, tornar essas convicções mais fortes do que o indivíduo, criar fantasmas, construtos que sorrateiramente controlam as mentes e tornam os indivíduos meros peões. É fácil olhar a religião como uma promovedora de diversos males, é fácil dizer, como exemplo, que o catolicismo promoveu a inquisição...Mas foi essa força mágica ou foram pessoas egoístas lutando pra manter seu poder e promover o medo da população? O fato de alguém acreditar em algo não faz essa pessoa ser necessariamente má. Não podemos julgar os atos dos humanos em coisas tão simplistas como crenças. Se fosse dessa maneira, então o comunismo poderia ser diretamente ligado ao genocídio e prisão de todos aqueles que discordam do seu modo de pensar ( como aconteceu na revolução russa, com detalhes sangrentos no massacre de crianças a baionetadas) ou que a ciência promove mais tantos genocídios (bomba atômica ou qualquer outra grandes descoberta cientifica apropriada pelos militares). É difícil olhar pare seres humanos e imaginar que certos indivíduos são capazes de atrocidades, é mais fácil culpar a todo um grupo por que eles compartilham alguma crença. Se nos comportarmos assim qual a diferença entre a ignorância religiosa e a ignorância anti-religiosa? Aparentemente é um fato: nos tornamos aquilo que mais odiamos. Tem tanta, tanta coisa errada no mundo, por que não vamos direcionar essa energia odiosa pra cima disso e parar de nos morder onde podemos tentar conversar.

Um comentário:

Unknown disse...

As vezes usamos da intolerância como forma de projetar nos outros nossa impotência perante a situações e idéias que não conseguimos encaixar em nosso modelo mental do mundo.

Com sorte vivemos situações hoje que nos permitem entender como essas falhas prejudicam a todos.

A freira, através de suas simples ações mais do que de suas crenças ou denominações, nos ensina até hoje. Mas manifestações de ódio para sempre ficam guardadas no porão vergonhoso do passado.